Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Blogagem colectiva: Aldeia da Minha Vida

Pretende-se que todos os participantes produzam um texto sobre uma aldeia portuguesa, de qualquer ponto do país. O texto deve ser original, constando o nome verdadeiro da aldeia , acompanhado com uma fotografia ou filme, ou slides que possam dar a conhecer a sua aldeia.

A forma de abordagem ao tema é livre, desde que envolva uma aldeia portuguesa, por exemplo, sobre aquela aldeia que ... marcou ou ainda marca a sua vida; escolheu para viver; onde habitualmente passa as suas férias, foi um sítio de passagem que o / a conquistou num passeio em família…
 

Este é o texto com que concorro a este evento blogosférico:

 

                                 

 

 

                                                            Impressões

 

Sei que era suposto eu falar de verdes campos, de suados e infindáveis trabalhos agrícolas, das velhinhas de amargurado e saudoso negro, dos omnipresentes animais e de toda a panóplia de sons, cores e sabores de uma qualquer aldeia portuguesa. Não o irei fazer… Lamento, mas não é possível moldar recordações para que correspondam a um padrão ou às expectativas alheias. As recordações mais marcantes que guardo das “idas à terra”, do tempo passado numa aldeia, ocultam-se dentro de uma pétrea construção do ido ano de 1934, casa principal da quinta da minha família materna e situada nas Termas de S. Pedro Sul. Correndo o risco de causar ainda mais estranheza aos leitores, sigo directamente por um corredor e afasto-me ainda mais dos espaços abertos e verdejantes. Rodo novamente a velha maçaneta de vidro verde e latão e fecho-me numa só divisão dessa casa. Sozinho. Ali estava a grande mesa de madeira, sempre majestosa e impondo-se de forma arrogante, apesar de eu saber como era trémulo o seu tampo, ao qual faltava a devida manutenção. Sobre ela repousava um jarrão de loiça tradicional, que eu considerava feio, apesar de eu naquela época viver numa década bastante flamboyant… Do lado esquerdo da mesa, um cadeirão de dois lugares de aspecto frágil, com as molas já a surgirem através do coçado veludo, parecendo que o conjunto se iria desmembrar espalhafatosamente a qualquer momento. Ao lado, um móvel sempre fechado à chave, sobre o qual estava um grande rádio Telefunken, uma obra de arte vinda de tempos menos uniformizados. Eu gostava de o ligar só para ver a sua impressionante iluminação. E, apesar de tudo parecer funcionar na perfeição, ele nunca abandonava a sua mudez. Porquê? Aquilo parecia quase teimosia do vetusto aparelho… Ter-se-ia cansado? Será que não gostava das ríspidas melodias daquela altura? Ou seria… pura solidão e saudade?... As paredes estavam repletas de quadros sem cor com pessoas muito sisudas que eu não conhecia. Por vezes era assustador… Parecia que me iam repreender a qualquer momento! Valiam-me os rostos que eu reconhecia e um grande quadro com a derradeira Família Real portuguesa. Ainda estava longe de conhecer a sua tragédia e achava-os simpáticos com os seus engraçados bigodes. Do outro lado da sala, o verdadeiro tesouro! Pelo menos para mim… Uma antiga secretária embutida num conjunto de estantes que cobriam toda aquela parede. Haviam ali centenas de livros de várias épocas, alguns já degustados pelos incultos bichos do papel, essa raça perversa e covarde. Mas o que eu realmente gostava era de me sentar na secretária e de remexer cuidadosamente nas várias gavetas. Eu até já sabia o que lá estava, mas era sempre como se fosse a primeira vez… Tudo permanecia como alguém havia deixado à muitos anos. Era estranho… Ali estava a fotografia do homem a quem tudo aquilo pertencera, o meu bisavô. Duas canetas de aparo permaneciam sobre um pequeno suporte de mármore, ao lado do mata-borrão e dos tinteiros já secos. As gavetas estavam cheias de recibos, postais, dinheiro, cartas por enviar e muitas fotografias, entre outras coisas mais banais. Não havia ali nada recente, nada que revelasse a existência das últimas décadas. Porquê? Porquê aquela descontinuidade, aquele abandono? Porque se abstivera a vida de, a partir de um determinado dia, entrar naquela divisão? Qual seria o segredo silenciosamente guardado entre aquelas paredes? Eu não tinha a coragem de perguntar a ninguém… Além do mais, queria ser eu a descobrir sozinho! Seria isso? Teria o passado conspirado para que eu descobrisse esse enigma? Mas eu era apenas um miúdo…

Naquela casa havia uma porta que dava acesso a uma máquina do tempo, a um mistério que me fascinava. Seria esse mistério apenas curiosidade exacerbada pela imaginação infantil? Talvez! Ou talvez não…    

 

               

 

               

 

A votação para o melhor texto decorrerá entre 10 e 28 de Junho.

Para votar deverá aceder ao seguinte blog:

 

www.aldeiadaminhavida.blogspot.com

publicado por sá morais às 00:07
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2 comentários:
De Pandora a 11 de Junho de 2009 às 19:07
Parabéns pelo texto, não sabia que ia decorrer o concurso e fiquei cheia de vontade de escrever algo, mas cheguei tarde e agora já não posso concorrer. Claro que vou votar no teu...Só li alguns ...
Para a minha próxima exposição não tens desculpa!!!!
Beijos e bom Fim de semana.


De tb a 26 de Junho de 2009 às 16:21
Fui lá votar. Está muito bom o teu texto. Não é que eu tivesse algumas dúvidas sobre a qualidade da tua escrita. :)
Acho que o fiz um bocadito tarde. Espero que não. Mas mais vale tarde que nunca não é amigo?
Beijinhos saudosos


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